Três, seis, nove, vejo uns treze navios esperando no mar a hora de entrar no porto nessa parte da baía de Vitória que minha visão alcança. Posso ver daqui as luzinhas das cabines onde os marinheiros devem estar tomando uns tragos e jogando baralho há pelo menos três dias, que é o tempo que eu estou hospedado na Praia da Costa. Sei histórias de barquinhos levando mulheres até as embarcações próximas ao porto pra ajudar a matar o tempo e a solidão dos marinheiros, mas esses estão longe demais.
- Que é que foi, Laika, o moço tá só olhando o vidro!
Na verdade eu buscava na vitrine da farmácia por xampu e chinelos, porque tinha esquecido de trazer os dois, e nem tinha notado a cocker spainel que empacara desconfiada atrás de mim. Eu nunca poria esse nome numa cadela: Laika.
Tem um monte de barquinhos aqui na beira da praia também, barquinhos coloridos de pescador: “Amanda”, “Trindade”, “Nênê”, “Dramin”. Dramin? É, tinha um barquinho de pescador na areia da praia chamado Dramin. Tomo outro gole de água de coco. Não quero ir embora daqui. Posso passar o resto da vida num bangalozinho escondido em Vila Velha catando sururu e vendendo caldinho pros turistas, defendendo o prato e os vestidos de alguma cabrocha com sangue de italiano metido e índio teimoso. Quem vem pra beira do mar, ai, nunca mais quer voltar. Brasília é CLSW 103, Eixo Monumental, Esplanada dos Ministérios. Vitória-Vila Velha é Curva da Jurema, Morro do Moreno, Praia do Canto, Ponte da Passagem, Jardim da Penha, Praça dos Namorados. Não vem com essa, você entende. Não me olhe desse jeito, Laika.