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Três, seis, nove, vejo uns treze navios esperando no mar a hora de entrar no porto nessa parte da baía de Vitória que minha visão alcança. Posso ver daqui as luzinhas das cabines onde os marinheiros devem estar tomando uns tragos e jogando baralho há pelo menos três dias, que é o tempo que eu estou hospedado na Praia da Costa. Sei histórias de barquinhos levando mulheres até as embarcações próximas ao porto pra ajudar a matar o tempo e a solidão dos marinheiros, mas esses estão longe demais.

- Que é que foi, Laika, o moço tá só olhando o vidro!

Na verdade eu buscava na vitrine da farmácia por xampu e chinelos, porque tinha esquecido de trazer os dois, e nem tinha notado a cocker spainel que empacara desconfiada atrás de mim. Eu nunca poria esse nome numa cadela: Laika.

Tem um monte de barquinhos aqui na beira da praia também, barquinhos coloridos de pescador: “Amanda”, “Trindade”, “Nênê”, “Dramin”. Dramin? É, tinha um barquinho de pescador na areia da praia chamado Dramin. Tomo outro gole de água de coco. Não quero ir embora daqui. Posso passar o resto da vida num bangalozinho escondido em Vila Velha catando sururu e vendendo caldinho pros turistas, defendendo o prato e os vestidos de alguma cabrocha com sangue de italiano metido e índio teimoso. Quem vem pra beira do mar, ai, nunca mais quer voltar. Brasília é CLSW 103, Eixo Monumental, Esplanada dos Ministérios. Vitória-Vila Velha é Curva da Jurema, Morro do Moreno, Praia do Canto, Ponte da Passagem, Jardim da Penha, Praça dos Namorados. Não vem com essa, você entende. Não me olhe desse jeito, Laika.

Na parada do ônibus (em Brasília se diz “parada”, não “ponto”) uma mulher está sentada e fala a outra que está de pé, alguns metros à sua frente. Fala alto, para que sua voz tenha alguma chance de chegar aos ouvidos da mulher que está de pé depois de driblar o bloqueio das quatro ou cinco pessoas que estão dispostas no percurso entre elas – o que inclui a mim – e enfrentar a massa sonora que emana do oceano de automóveis que, a essa hora do dia, emporcalha cada nesga da avenida com seus motores e buzinas.

As duas mulheres, definitivamente, não estão se entendendo. A mulher sentada fala alto o suficiente para incomodar todas as pessoas que ocupam o abrigo e adjacências num raio de uns cinco metros, mas não parece o bastante para estabelecer com sucesso um diálogo com a mulher de pé. A mulher sentada começa a ficar irritada: eleva ainda mais o tom da voz, atraindo olhares de reprovação, gesticula, pragueja. Nada funciona.

Apesar do impasse, nenhuma das duas demonstra interesse em deixar seu lado do front. A mulher de pé (que já se equilibra sobre o meio-fio agora; um passo em falso e vai mergulhar no oceano das seis e meia) aparentemente está convencida de que detém, de seu posto, a melhor visão dos ônibus que chegam e deixam a parada – no que, talvez, tenha alguma razão. A mulher sentada, por sua vez, não parece disposta a abrir mão do assento, tão disputado a essa hora do dia. E o diálogo de surdos prossegue.

Por acaso me dou conta de que, apesar de estar bem mais próximo da mulher sentada do que da mulher de pé, também não estou entendendo patavina do que a mulher sentada diz. Mal concluo o raciocínio, noto vagamente na fala da mulher sentada – que durante todo este tempo não parou de falar – uma ponta de sotaque hispânico. E agora ouço ao meu lado direito, e com clareza cristalina, a mulher de pé finalmente dizer que não está entendendo nada do que a mulher sentada diz e lhe aconselhar a calar a boca. Desta vez, o sotaque é goiano.

A mulher sentada ainda contra-ataca com algum impropério dirigido à mulher de pé, mas no exato instante em que o faz, uma senhora muito velha sentada ao seu lado é acometida por um súbito ataque de tosse (provavelmente causado pela fumaça dos automóveis) que soterra por completo suas palavras. Depois do quê a mulher sentada, resignada, parece hastear a bandeira branca.

Desisto de acompanhar a situação porque, enquanto a senhora muito velha ainda termina de tossir, chega à parada de ônibus a mocinha do caixa da cantina. Quando eu estou no mesmo ambiente que a mocinha do caixa da cantina, eu não consigo pensar nem prestar atenção em mais nada.

Minutos mais tarde, já acomodado no ônibus que me levaria de volta pra casa, consegui pensar. E pensei se o oceano das seis e meia, a mulher de sotaque hispânico que não consegue se fazer entender, a que acompanha concentrada a chegada e saída dos ônibus, a senhora muito velha que tem um ataque de tosse e a mocinha do caixa da cantina não mereciam um blog. Não consigo pensar em nenhum assunto que mereça mais.